por Keitiline R.
Viacava e Adriana Z. da Matta
Grande
parte de nossas escolhas e atitudes no presente são motivadas por expectativas de
benefícios futuros. Deixamos de beber ou fumar para envelhecer com saúde,
praticamos exercícios para adquirir boa forma e seguimos dietas alimentares
para perder peso, por exemplo. Não raramente, porém, fracassamos na manutenção
desses comportamentos, seja cedendo à vontade de beber ou fumar, deixando de
nos exercitar corretamente ou não cuidando a dieta o suficiente. O valor que
atribuímos ao futuro, em relação ao presente, é o foco de estudos em
Desvalorização Temporal.
Estudiosos
do tema têm mostrado que nós tendemos à preferir recompensas imediatas, ao
invés de recompensas futuras, mesmo quando a espera possa gerar benefícios
maiores. Além disso, pesquisas têm revelado que dependentes químicos e
portadores de comportamentos compulsivos (e.g. jogadores, comedores e consumidores)
tendem à desvalorizar mais severamente as recompensas futuras, favorecendo
escolhas por recompensas imediatas, como o consumo de drogas, por exemplo.
Buscando
entender esse funcionamento, pesquisadores têm indicado correlações entre a Desvalorização
Temporal tanto com a avaliação que fazemos do passado quanto com a memória que
mantemos dele. Tais hipóteses levaram o professor Warren Bickel e seus colegas da
Universidade de Arkansas nos Estados Unidos a realizarem uma pesquisa que teve
como objetivo investigar se o treino da memória de trabalho poderia resultar em
menor desvalorização de recompensas futuras.
Nesse
estudo, técnicas de reabilitação neurocognitivas foram utilizadas para explorar
funções de desvalorização temporal e de memória em 27 indivíduos em tratamento
de dependência de substâncias estimulantes (i.e. cocaína e metanfetaminas). Os
participantes foram selecionados aleatoriamente para receber treinamento de
memória, nas modalidades experimental ou controle. Medidas de desvalorização e
de outras funções cognitivas foram avaliadas antes e depois das sessões de treinamento.
Os resultados ilustraram que as taxas de desvalorização temporal foram menores
nos participantes que receberam o treino da memória, se comparado ao grupo
controle, indicando uma relação funcional entre desvalorização temporal e
memória.
Esses
achados são extremamente interessantes, mas outras pesquisas precisam ser realizadas
até que novas estratégias ou intervenções clínicas, voltadas à redução da
desvalorização temporal possam ser formuladas. Resta saber, por exemplo, se os
efeitos do treino da memória são sustentados ou dissipados ao longo do tempo.
Referência
Bickel,
W. K, Yi, R., Landes, R. D., Hill, P. F, & Baxter, C. (2011). Remember the
future: Working memory training decreases delay discounting among stimulant addicts.
Biological Psychiatry, 69, 260–265. doi:10.1016/j.biopsych.2010.08.017

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