domingo, 22 de abril de 2012

Tomando decisões de longo prazo? Então, atenção ao processo de desvalorização das recompensas


por Keitiline R. Viacava e Adriana Z. da Matta





Grande parte de nossas escolhas e atitudes no presente são motivadas por expectativas de benefícios futuros. Deixamos de beber ou fumar para envelhecer com saúde, praticamos exercícios para adquirir boa forma e seguimos dietas alimentares para perder peso, por exemplo. Não raramente, porém, fracassamos na manutenção desses comportamentos, seja cedendo à vontade de beber ou fumar, deixando de nos exercitar corretamente ou não cuidando a dieta o suficiente. O valor que atribuímos ao futuro, em relação ao presente, é o foco de estudos em Desvalorização Temporal.

Estudiosos do tema têm mostrado que nós tendemos à preferir recompensas imediatas, ao invés de recompensas futuras, mesmo quando a espera possa gerar benefícios maiores. Além disso, pesquisas têm revelado que dependentes químicos e portadores de comportamentos compulsivos (e.g. jogadores, comedores e consumidores) tendem à desvalorizar mais severamente as recompensas futuras, favorecendo escolhas por recompensas imediatas, como o consumo de drogas, por exemplo.

Buscando entender esse funcionamento, pesquisadores têm indicado correlações entre a Desvalorização Temporal tanto com a avaliação que fazemos do passado quanto com a memória que mantemos dele. Tais hipóteses levaram o professor Warren Bickel e seus colegas da Universidade de Arkansas nos Estados Unidos a realizarem uma pesquisa que teve como objetivo investigar se o treino da memória de trabalho poderia resultar em menor desvalorização de recompensas futuras.

Nesse estudo, técnicas de reabilitação neurocognitivas foram utilizadas para explorar funções de desvalorização temporal e de memória em 27 indivíduos em tratamento de dependência de substâncias estimulantes (i.e. cocaína e metanfetaminas). Os participantes foram selecionados aleatoriamente para receber treinamento de memória, nas modalidades experimental ou controle. Medidas de desvalorização e de outras funções cognitivas foram avaliadas antes e depois das sessões de treinamento. Os resultados ilustraram que as taxas de desvalorização temporal foram menores nos participantes que receberam o treino da memória, se comparado ao grupo controle, indicando uma relação funcional entre desvalorização temporal e memória.

Esses achados são extremamente interessantes, mas outras pesquisas precisam ser realizadas até que novas estratégias ou intervenções clínicas, voltadas à redução da desvalorização temporal possam ser formuladas. Resta saber, por exemplo, se os efeitos do treino da memória são sustentados ou dissipados ao longo do tempo.

Referência

Bickel, W. K, Yi, R., Landes, R. D., Hill, P. F, & Baxter, C. (2011). Remember the future: Working memory training decreases delay discounting among stimulant addicts. Biological Psychiatry, 69, 260–265. doi:10.1016/j.biopsych.2010.08.017

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