domingo, 22 de abril de 2012

A meditação como uma forma de treinamento mental

Carolina Baptista Menezes


Você anda desatento, ou com problemas de manter a concentração por muito tempo? Um estudo realizado no Laboratório de Imagem Cerebral e Comportamento, da Universidade de Wisconsin-Madison, EUA, mostrou que a meditação sentada e silenciosa pode ser uma alternativa para este problema.



Esta pesquisa, a qual foi publicada em 2009 na revista The Journal of Neuroscience, demonstrou que um treino intensivo de meditação da atenção focada produz melhoras na estabilidade da atenção, ou seja, na chamada atenção sustentada. Segundo os autores discutem, a capacidade de manter a atenção sustentada pode variar entre indivíduos e o seu prejuízo pode ser uma importante característica de muitos transtornos mentais, em especial, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Os responsáveis pela pesquisa acreditam que os resultados encontrados são importantes, pois evidenciam que esta habilidade pode ser treinada e modificada.  

O estudo comparou pessoas que participaram de um treino de meditação de três meses, com uma prática diária de 10-12 horas, e pessoas que meditaram 20 minutos por dia durante o mesmo período. A avaliação foi feita através de índices comportamentais e cerebrais.

Na tarefa comportamental, a qual consistia na identificação de um som intermitente em apenas um dos ouvidos, a variabilidade do tempo necessário para identificar e emitir a resposta - através de um teclado - foi significativamente menor no grupo que fez o treino intensivo. Da mesma forma, apenas neste grupo um padrão de menor variabilidade foi identificado na atividade elétrica do cérebro, em especial na fase theta, em áreas anteriores. Conforme os autores explicam, esta fase está associada ao controle cognitivo.

Além destes dados serem compatíveis, isto ficou ainda mais evidente pela correlação observada entre a resposta comportamental e cerebral, isto é, os praticantes que tiveram a maior consistência na oscilação da fase theta, apresentaram menor variabilidade no tempo de reação.

Portanto, segundo os autores, a capacidade de prestar mais atenção a um estímulo pode decorrer de uma maior habilidade de manter estável a oscilação neuronal frente a uma estimulação sensorial. Em outras palavras, este seria um mecanismo importante para controlar o conteúdo da atenção. E, conforme os dados apontam, isto pode ser aperfeiçoado através do treino da meditação.

O artigo Mental Training Enhances Attentional Stability: Neural and Behavioral Evidence (doi: 10.1523/JNEUROSCI.1614-09.2009), de Antoine Lutz e outros, pode ser lido na revista The Journal of Neuroscience em http://www.jneurosci.org/content/29/42/13418.full


Tomando decisões de longo prazo? Então, atenção ao processo de desvalorização das recompensas


por Keitiline R. Viacava e Adriana Z. da Matta





Grande parte de nossas escolhas e atitudes no presente são motivadas por expectativas de benefícios futuros. Deixamos de beber ou fumar para envelhecer com saúde, praticamos exercícios para adquirir boa forma e seguimos dietas alimentares para perder peso, por exemplo. Não raramente, porém, fracassamos na manutenção desses comportamentos, seja cedendo à vontade de beber ou fumar, deixando de nos exercitar corretamente ou não cuidando a dieta o suficiente. O valor que atribuímos ao futuro, em relação ao presente, é o foco de estudos em Desvalorização Temporal.

Estudiosos do tema têm mostrado que nós tendemos à preferir recompensas imediatas, ao invés de recompensas futuras, mesmo quando a espera possa gerar benefícios maiores. Além disso, pesquisas têm revelado que dependentes químicos e portadores de comportamentos compulsivos (e.g. jogadores, comedores e consumidores) tendem à desvalorizar mais severamente as recompensas futuras, favorecendo escolhas por recompensas imediatas, como o consumo de drogas, por exemplo.

Buscando entender esse funcionamento, pesquisadores têm indicado correlações entre a Desvalorização Temporal tanto com a avaliação que fazemos do passado quanto com a memória que mantemos dele. Tais hipóteses levaram o professor Warren Bickel e seus colegas da Universidade de Arkansas nos Estados Unidos a realizarem uma pesquisa que teve como objetivo investigar se o treino da memória de trabalho poderia resultar em menor desvalorização de recompensas futuras.

Nesse estudo, técnicas de reabilitação neurocognitivas foram utilizadas para explorar funções de desvalorização temporal e de memória em 27 indivíduos em tratamento de dependência de substâncias estimulantes (i.e. cocaína e metanfetaminas). Os participantes foram selecionados aleatoriamente para receber treinamento de memória, nas modalidades experimental ou controle. Medidas de desvalorização e de outras funções cognitivas foram avaliadas antes e depois das sessões de treinamento. Os resultados ilustraram que as taxas de desvalorização temporal foram menores nos participantes que receberam o treino da memória, se comparado ao grupo controle, indicando uma relação funcional entre desvalorização temporal e memória.

Esses achados são extremamente interessantes, mas outras pesquisas precisam ser realizadas até que novas estratégias ou intervenções clínicas, voltadas à redução da desvalorização temporal possam ser formuladas. Resta saber, por exemplo, se os efeitos do treino da memória são sustentados ou dissipados ao longo do tempo.

Referência

Bickel, W. K, Yi, R., Landes, R. D., Hill, P. F, & Baxter, C. (2011). Remember the future: Working memory training decreases delay discounting among stimulant addicts. Biological Psychiatry, 69, 260–265. doi:10.1016/j.biopsych.2010.08.017

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Meditação pode ajudar a silenciar a mente


 07/09/2011

Uma boa notícia para os adeptos e simpatizantes da meditação, ou mesmo para aqueles que ainda receiam que este assunto seja apenas de domínio esotérico. Segundo um estudo realizado na Universidade de Emory, através de uma colaboração entre os Departamentos de Psicologia, e Psiquiatria e Ciências Comportamentais, a meditação pode realmente ajudar a silenciar a mente.



Em uma pesquisa publicada este ano na revista NeuroImage, foram identificados padrões de ativação cerebral distintos enquanto os participantes meditavam, em comparação a quando suas mentes divagavam e se distraíam, mesmo que sem um estímulo específico, cujo fenômeno vem sendo chamado por psicólogos de mind wandering.

Segundo os autores discutem, mind wandering tem sido bastante associado a estados psicológicos mais negativos, podendo chegar a extremos, como no caso de pessoas com Depressão Ruminativa, ou com dificuldades de concentração, culminando no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Os dados do estudo sugerem que o treino em meditação parece ser uma forma de controlar este fenômeno e, portanto, poderia ser uma alternativa para as intervenções psicológicas.

Os participantes, os quais eram meditadores com um mínimo de um ano de prática regular, foram solicitados a meditar enquanto seus cérebros eram escaneados por ressonância funcional. Toda vez que percebessem que sua mente havia dispersado, deveriam apertar um botão.

Além de encontrar uma ativação cerebral distinta entre a atividade de focar a atenção durante a meditação e o mind wandering, os pesquisadores também encontraram uma associação negativa entre o tempo de prática e a ativação de uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal ventromedial.

Conforme os autores explicam, esta região está envolvida em processos como direcionamento da atenção com base em um objetivo, ou re-orientação da atenção. O fato de que praticantes mais experientes tiveram essa região menos ativada indica que o treino de meditação pode gerar uma maior habilidade de o praticante retornar ao foco da meditação mais rapidamente, e com menos esforço, quando percebe que sua mente divagou.

Segundo o grupo de pesquisadores americanos, através da meditação a pessoa pode aprender a se envolver e reagir menos às suas distrações. Assim, praticantes conseguem ter uma maior capacidade de sustentar a atenção em um foco, bem como uma menor probabilidade de se engajar em auto-avaliações e julgamentos, os quais muitas vezes acompanham sintomas ou condições psicológicas negativas.

O artigo Mind wandering and attention during focused meditation: A fine-grained temporal analysis of fluctuating cognitive states (doi: 10.1016/j.neuroimage.2011.07.008), de Wendy Hasenkamp e outros, pode ser lido na revista NeuroImage em http://journals.elsevier.com/10538119/neuroimage/


texto escrito por: Carolina Baptista Menezes




Apresentação

Como parte das atividades do do Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Comportamento (LPNeC - http://sites.google.com/site/lpneclab/ ), estudantes e professores do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRGS reúnem-se em um Clube de Revista (Journal Club). Neste clube, seus membros trazem artigos para serem apresentados e criticados, servindo assim de base para uma troca de idéias. Apresentando assuntos, reportagens e artigos discutidos no Journal Club, Tem que ter Psicologia foi feito com o objetivo estimular a divulgação da ciência e o debate de assuntos que envolvem questões da área de Psicologia.